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Rever a terapêutica no doente complexo: a importância da desprescrição na prática clínica

Publicado dia Maio 23, 2026 Comentários fechados em Rever a terapêutica no doente complexo: a importância da desprescrição na prática clínica

A sessão “Encontro com Especialista: Suspensão farmacológica no doente crónico e complexo” foi apresentada por Sofia Duque, que destacou a desprescrição como um dos temas centrais da prática atual em Medicina Interna, num contexto marcado pelo aumento da multimorbilidade e da polimedicação.

A especialista sublinhou que o tema da desprescrição é particularmente relevante na prática clínica contemporânea, uma vez que os internistas acompanham cada vez mais doentes crónicos e complexos, frequentemente com múltiplos prescritores e regimes terapêuticos extensos. Neste cenário, alertou que a acumulação de fármacos pode aumentar o risco de interações medicamentosas, reações adversas, cascatas de prescrição, quedas, internamentos, perda funcional e declínio cognitivo.

Sofia Duque reforçou que “o problema não é simplesmente o número de medicamentos, mas sim a polimedicação inapropriada”, sublinhando que a existência de múltiplos fármacos não é, por si só, negativa quando estes são clinicamente adequados. “Há situações em que a polimedicação é necessária e apropriada”, referiu, acrescentando que o essencial é avaliar se cada medicamento mantém benefício clínico e se continua alinhado com os objetivos terapêuticos do doente.

Durante a sessão, foi enfatizado que desprescrever “não significa desistir de tratar”, mas sim reavaliar criticamente a terapêutica, reduzir dano potencial e promover melhor funcionalidade e qualidade de vida. Entre os pontos-chave abordados, destacou-se a necessidade de compreender porque surge a desprescrição, com a reavaliação contínua da terapêutica em doentes crónicos e complexos, onde medicamentos podem tornar-se desajustados, perigosos ou sem benefício relevante.

A especialista distinguiu ainda polimedicação apropriada de inapropriada, sublinhando a importância de integrar a evidência científica com a realidade clínica, funcional, cognitiva e social de cada doente. Foram também discutidos sinais de alerta que devem motivar revisão terapêutica, como quedas, delirium, hipotensão, sonolência, hiponatremia, obstipação, fadiga, perda ponderal ou duplicações terapêuticas.

Outro dos focos da sessão foi a abordagem prática da desprescrição, que deve seguir uma metodologia estruturada: revisão da medicação efetiva, confirmação das indicações, reavaliação dos objetivos terapêuticos, priorização dos fármacos a suspender e planeamento cuidadoso com monitorização clínica. Neste âmbito, foram ainda referidos grupos de medicamentos frequentemente associados a iatrogenia, como benzodiazepinas, antipsicóticos, anticolinérgicos, anti-inflamatórios, alguns antidepressivos e inibidores da bomba de protões, sempre contextualizados ao doente individual.

Sofia Duque sublinhou ainda a importância de “colocar a pergunta certa”, defendendo que mais do que questionar se um medicamento é apropriado, deve-se perguntar se continua a ser apropriado para aquele doente em concreto.

No que diz respeito ao 32.º Congresso Nacional de Medicina Interna, a especialista destacou-o como o principal momento anual de encontro dos internistas portugueses, valorizando a atualização científica, a partilha de experiências e a criação de redes colaborativas entre serviços e instituições. Referiu ainda que o congresso tem um papel essencial na identificação de desafios comuns e na discussão de soluções adaptáveis à realidade nacional, reforçando o sentido de pertença à especialidade.

Quanto às expectativas para esta edição, Sofia Duque afirmou serem “muito positivas”, destacando a nova abordagem na comunicação do evento, mais dinâmica e próxima dos internistas, bem como a introdução de novos formatos no programa científico.

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