A sessão “Controvérsia” dedicada ao tema “Ética da persistência e overtreatment”, reuniu diferentes perspetivas sobre os limites da intervenção terapêutica na prática clínica contemporânea.
Na sessão, Giovanni Cerullo, com intervenção centrada na “Visão do Paliativista”, sublinhou a relevância clínica e ética do tema, destacando a necessidade de reflexão sobre a proporcionalidade dos cuidados. “É um tema de grande relevância clínica, ética e humana. A persistência terapêutica desproporcionada e o overtreatment são realidades ainda frequentes, sobretudo em doentes frágeis ou com doença avançada”, afirmou, acrescentando que “importa refletir sobre quando tratar deixa de beneficiar, promovendo cuidados proporcionais, dignos e centrados na pessoa”.
O especialista abordou ainda a importância da comunicação e da tomada de decisão partilhada, bem como o papel dos Cuidados Paliativos na humanização dos cuidados e na adequação terapêutica, distinguindo intervenção útil de obstinação terapêutica em contexto clínico complexo.
No mesmo debate, António Carneiro apresentou a “Visão da Bioética (NEBio)”, centrando a sua intervenção na crescente complexidade da prática clínica atual. O especialista começou por contextualizar os desafios contemporâneos, referindo que “em Portugal, a esperança média de vida, ao nascer, é mais do dobro do que era há um século atrás”, acrescentando que, em paralelo, “o número de pessoas com doença crónica, doenças incuráveis e multimorbilidade aumentou exponencialmente”.
Perante este cenário, defendeu a necessidade de um Plano Individual e Integrado de Cuidados (PIIC), sublinhando que este instrumento é essencial para orientar decisões clínicas, sobretudo em fases avançadas da doença. “O PIIC é o principal obstáculo à obstinação terapêutica e o melhor contributo para respeitar os desejos expressos pelo doente”, afirmou, reforçando ainda que “o objetivo da Ética Médica se centra na procura do que deve ser feito em cada situação concreta e na recusa do que pode, mas não deve ser feito”.
António Carneiro destacou também a importância de garantir que o plano terapêutico esteja acessível a todos os profissionais de saúde, permitindo uma abordagem alinhada com os objetivos do doente, especialmente em situações de fim de vida.
Relativamente ao 32.º CNMI, Giovanni Cerullo considerou o congresso um momento central de atualização e debate científico na Medicina Interna, sublinhando o seu papel na partilha de experiências e na discussão dos desafios atuais da prática clínica. Também António Carneiro reforçou essa perspetiva, destacando que o congresso “assegura a continuidade de uma das principais atividades da Medicina Interna em Portugal”, promovendo não só atualização científica, mas também reencontro entre pares e troca de experiências.
As expectativas de ambos os especialistas convergiram na valorização de um congresso cientificamente sólido e reflexivo, capaz de estimular pensamento crítico e práticas mais integradas, prudentes e centradas no doente.