A mesa-redonda dedicada ao tema “Insuficiência cardíaca crónica – Personalizar a terapêutica”, contou com a participação de Ana Nascimento, Pedro Carreira e Vanessa Novais de Carvalho, que abordaram perspetivas complementares na gestão do doente complexo com insuficiência cardíaca.
Ana Nascimento centrou a sua intervenção na otimização terapêutica da insuficiência cardíaca no doente com doença renal crónica (DRC), um dos cenários mais desafiantes da prática clínica atual. Sublinhou que a disfunção renal levou durante anos a uma abordagem mais conservadora, com redução ou suspensão de fármacos. “Hoje sabemos que esse ‘niilismo terapêutico’ pode ser prejudicial e que os doentes com DRC são precisamente aqueles que mais beneficiam de uma abordagem precoce e otimizada”, referiu. Destacou ainda o papel das terapêuticas cardiorrenais, como SGLT2 e bloqueadores do sistema renina-angiotensina, e reforçou que pequenas elevações da creatinina não devem motivar suspensão precoce. Terminou sublinhando a importância da Medicina Interna na integração de cuidados e no combate à inércia terapêutica.
Pedro Carreira dedicou a sua intervenção ao tema “Polimedicação: quando e como minimizar?”, destacando o paradoxo entre o avanço terapêutico e o aumento da complexidade medicamentosa. “O sucesso da insuficiência cardíaca traduz-se frequentemente em polimedicação significativa”, referiu, alertando para o impacto negativo em adesão, reações adversas e prognóstico. Defendeu que “o problema não é prescrever menos, é prescrever melhor”, considerando a polimedicação um determinante prognóstico independente. Estruturou a sua abordagem na necessidade de identificar fármacos essenciais, evitar iatrogenia e aplicar desprescrição criteriosa e individualizada.
Vanessa Novais de Carvalho abordou o tema “Indicações e riscos das terapêuticas para a obesidade na Insuficiência Cardíaca”, centrando-se num desafio clínico cada vez mais frequente e relevante na prática diária. A especialista explorou o impacto da obesidade na progressão da insuficiência cardíaca e discutiu o papel emergente das novas terapêuticas dirigidas à perda ponderal, nomeadamente os agonistas do GLP-1, no controlo metabólico e cardiovascular destes doentes. Destacou ainda a importância de uma seleção criteriosa dos candidatos a estas terapêuticas, alertando para potenciais riscos, interações e limitações em doentes mais frágeis ou com múltiplas comorbilidades. A especialista defendeu uma abordagem individualizada e multidisciplinar, orientada para o equilíbrio entre benefício clínico, segurança e qualidade de vida.
Nesta mesa-redonda esteve também presente Patrícia Dias, com o tema “Otimização terapêutica: a fração de ejeção é relevante?”.
Quanto ao 32.º Congresso Nacional de Medicina Interna, Ana Nascimento destacou-o como um momento de partilha e reflexão crítica sobre a prática clínica. Pedro Carreira referiu-o como o espaço onde a especialidade se revê e se calibra, reforçando o papel central do internista na gestão da complexidade. Vanessa Novais de Carvalho salientou a importância do congresso enquanto oportunidade de atualização científica e discussão de temas emergentes, sobretudo numa altura em que a Medicina Interna enfrenta doentes cada vez mais complexos e multidimensionais.
Nas expectativas para o congresso, Ana Nascimento salientou a importância de ir além das guidelines e focar a aplicação prática ao doente real. Pedro Carreira destacou a necessidade de aprofundar a ligação entre conhecimento e prática clínica, valorizando também a dimensão humana e o reencontro entre colegas. Já Vanessa Novais de Carvalho sublinhou a expectativa de promover uma discussão aberta sobre inovação terapêutica e personalização dos cuidados, reforçando a necessidade de integrar evidência científica com decisões centradas no doente.