A mesa-redonda dedicada ao tema “Risco cardiovascular nas doenças inflamatórias sistémicas”, contou com a participação de Andreia Matos, Magda Fernandes e José Delgado Alves.
Andreia Matos começou por destacar a relevância da doença cardiovascular como principal causa de morte na União Europeia, incluindo Portugal. “Contribui de forma significativa para a incapacidade, absentismo e para a redução da qualidade e esperança média de vida”, afirmou, salientando que os fatores de risco cardiovasculares são transversais a múltiplas doenças sistémicas e áreas da medicina.
Na sua intervenção, centrou-se particularmente na doença hepática, sublinhando que várias sociedades científicas reconhecem atualmente o impacto crescente da doença hepática crónica em termos de morbimortalidade e custos em saúde, sobretudo nas fases mais avançadas.
Segundo a palestrante, o sistema cardiovascular e o fígado são órgãos centrais no metabolismo energético e no equilíbrio hemodinâmico (eixo fígado-coração), regulados de forma bidirecional e influenciados por outros sistemas de órgão.
Estima-se que cerca de um terço da população portuguesa apresente doença hepática esteatósica. Andreia Matos recordou que o consumo excessivo de álcool continua a ser uma causa importante de cirrose hepática em Portugal, embora a síndrome metabólica e os fatores de risco vasculares assumam hoje um papel central no contexto da MASLD (Metabolic Dysfunction – Associated Steatotic Liver Disease).
“A síndrome metabólica e os fatores de risco vasculares associam-se frequentemente à esteatose e a maior incidência de eventos cardiovasculares”, explicou, acrescentando que a doença cardiovascular permanece a principal causa de morte nos doentes com MASLD. Apesar de a relação causal direta continuar em investigação, mecanismos como insulinorresistência, inflamação crónica e alterações da lipogénese parecem desempenhar um papel relevante na doença cardíaca e cerebrovascular. A evolução para fibrose hepática constitui um dos principais fatores prognósticos.
Nesse sentido, Andreia Matos defendeu “uma visão multidisciplinar, prática e integrativa”, capaz de permitir a identificação precoce dos doentes de maior risco, a estratificação adequada da fibrose hepática e o controlo simultâneo dos fatores de risco vasculares.
A especialista destacou ainda a importância da intervenção sobre a síndrome metabólica e das mudanças de estilo de vida como pilares fundamentais do tratamento. Foi igualmente realizada uma revisão das estratégias farmacológicas desenvolvidas ao longo dos últimos anos, focando as abordagens mais recentes, consideradas promissores tanto no controlo do risco cardiovascular, como na redução da inflamação e da fibrose hepática, ou mesmo no consumo de álcool.
Por sua vez, Magda Fernandes abordou o risco cardiovascular nas pessoas que vivem com VIH, sublinhando que a evolução da terapêutica antirretrovírica permitiu aumentar significativamente a esperança média de vida destes doentes, tornando as comorbilidades cardiovasculares um desafio crescente.
Segundo a especialista, o aumento do risco cardiovascular resulta de fatores como inflamação crónica persistente, ativação imunitária, disfunção endotelial e alterações metabólicas associadas quer à infeção quer à terapêutica antirretrovírica. Magda Fernandes destacou ainda as limitações dos modelos clássicos de estratificação de risco cardiovascular nesta população, defendendo “uma abordagem preventiva mais precoce e individualizada”.
Também José Delgado Alves integrou esta mesa-redonda, com uma intervenção dedicada às “Doenças Imunoimediadas” e à relação entre inflamação sistémica e risco cardiovascular.
O especialista destacou que o risco cardiovascular representa uma das áreas de intervenção médica com maior potencial para reduzir a mortalidade e morbilidade globais. Contudo, alertou que o reconhecimento científico dos múltiplos fatores envolvidos ainda não corresponde a uma prática clínica suficientemente eficaz e generalizada, sobretudo no contexto das doenças sistémicas.
Segundo José Delgado Alves, esta discrepância torna-se particularmente evidente em patologias acompanhadas por especialidades diferentes da Medicina Interna, frequentemente com abordagens menos abrangentes e demasiado centradas nos fármacos disponíveis, em detrimento dos mecanismos fisiopatológicos subjacentes.
Durante a sessão, a apresentação incidiu sobretudo sobre o risco cardiovascular associado ao lúpus eritematoso sistémico, utilizando esta doença como exemplo da diversidade de mecanismos envolvidos nas doenças autoimunes e do impacto que podem ter no desenvolvimento de doença vascular aterosclerótica.
Entre os pontos-chave abordados, o especialista destacou a importância de identificar os principais mecanismos fisiopatológicos responsáveis pelo desenvolvimento de doença cardiovascular nas doenças imuno-inflamatórias. Defendeu ainda uma abordagem mais científica e baseada na fisiopatologia destas patologias, reforçando a ideia de que consequências clínicas semelhantes podem resultar de mecanismos biológicos muito distintos.