A conferência 3 do 32.º CNMI foi dedicada ao tema “Por que temos tão poucos hipertensos controlados?”, contando com a intervenção de Fernando Martos Gonçalves, presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), que trouxe para debate um dos paradoxos mais relevantes da Medicina contemporânea.
“A hipertensão arterial continua a ser um dos principais fatores de risco modificáveis para doença coronária, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, doença renal crónica, demência e morbimortalidade prematura”, referiu, acrescentando que, apesar da existência de terapêuticas eficazes, “uma proporção significativa dos doentes permanece por diagnosticar, por tratar ou sem controlo adequado”.
Fernando Martos Gonçalves destacou ainda que este cenário ultrapassa o domínio individual e afirma-se como um desafio sistémico. “Esta questão deixou de ser apenas um problema clínico individual para se afirmar como um verdadeiro desafio de saúde pública”, afirmou, sublinhando falhas em múltiplos pontos da cadeia de cuidados, desde a medição da pressão arterial até à adesão terapêutica e seguimento clínico.
Durante a sessão, o especialista apontou como causas principais do baixo controlo tensional o subdiagnóstico, a medição inadequada da pressão arterial, a inércia terapêutica, a baixa adesão ao tratamento e a complexidade de alguns regimes terapêuticos. Defendeu ainda que a hipertensão deve ser encarada como uma doença crónica, silenciosa e cumulativa, exigindo “continuidade de cuidados, automedição, educação do doente e definição objetiva de metas terapêuticas”.
Fernando Martos Gonçalves reforçou também a importância das recomendações mais recentes e da perspetiva da Organização Mundial da Saúde, sublinhando que o controlo da hipertensão depende tanto da prática clínica como de políticas de saúde pública. “Temos poucos hipertensos controlados não por falta de evidência, mas por falhas de implementação de medidas adequadas”, afirmou, acrescentando que o desafio atual passa por “transformar recomendações bem escritas em percursos assistenciais simples, consistentes e mensuráveis”.
Relativamente ao Congresso Nacional de Medicina Interna, o especialista destacou o seu papel fulcral num contexto de crescente complexidade clínica. “A Medicina Interna ocupa uma posição central na resposta aos grandes desafios atuais da saúde, nomeadamente o envelhecimento da população, a multimorbilidade e a doença crónica”, referiu, sublinhando ainda a necessidade de valorização da especialidade e do seu papel integrador no sistema de saúde.
Fernando Martos Gonçalves destacou também o congresso como um espaço essencial de atualização científica e reflexão crítica. “É também um fórum privilegiado de atualização científica, discussão multidisciplinar e partilha de experiência clínica real”, afirmou, reforçando a importância da Medicina Interna na articulação dos cuidados e na visão global do doente.
Quanto às expectativas, o especialista mostrou-se confiante num evento de elevada qualidade científica e impacto prático. “Espero que permita discutir estratégias terapêuticas e formas mais eficazes de implementar a evidência científica na prática clínica”, referiu, sublinhando a necessidade de melhorar o controlo da hipertensão através de diagnósticos mais precoces, terapêuticas simplificadas e melhores circuitos assistenciais.
Concluiu com uma nota de ambição para o futuro: “Espero que este seja um Congresso inspirador, capaz de transformar conhecimento em ação clínica e reflexão em mudança”.