A conferência 4 do 32.º Congresso Nacional de Medicina Interna foi dedicada ao tema “Valor em MI: Como medir o impacto?”, com intervenção de Bernardo Neves, que trouxe para o debate a necessidade de redefinir a forma como o sistema de saúde avalia o trabalho médico, em particular na Medicina Interna.
O especialista começou por sublinhar que o modelo atual de financiamento assente no volume de atos clínicos não reflete adequadamente a realidade da especialidade. “Há décadas que os sistemas de saúde se financiam a contar atos: consultas, internamentos, procedimentos. Esta lógica de volume penaliza estruturalmente a Medicina Interna, mas sobretudo os doentes”, afirmou, explicando que os internistas se focam no equilíbrio global do doente e na coordenação dos cuidados, dimensões frequentemente não valorizadas pelos modelos tradicionais.
Bernardo Neves destacou ainda o impacto desta invisibilidade na prática clínica e na perceção da especialidade. “O resultado é uma especialidade cujo trabalho é, em larga medida, invisível para o sistema”, referiu, acrescentando que isso se traduz em “insatisfação e subreconhecimento crónicos” e numa desconexão entre o valor clínico produzido e a sua tradução em reconhecimento ou financiamento.
Na sua intervenção, o especialista defendeu uma mudança de paradigma centrada no que realmente importa para os doentes. “Falar de valor em Medicina é, antes de mais, deslocar o foco do que é fácil medir para nos focarmos no que de facto importa ao doente”, afirmou.
Entre os pontos-chave da sessão, destacou-se o potencial da Inteligência Artificial (IA) para transformar a forma como se mede o impacto clínico. “Pela primeira vez temos ferramentas que nos ajudam a recolher e processar, em larga escala, indicadores reportados pelos próprios doentes”, referiu, sublinhando a possibilidade de integrar métricas de resultados clínicos reais e percecionados pelo doente nos sistemas de avaliação.
O especialista alertou ainda para uma mudança estrutural em curso na prática médica. “O conhecimento clínico, incluindo aquele que era considerado de nicho ou de especialidade, vai ter tendência a ser democratizado; o que se torna escasso é a capacidade de julgamento, de coordenar e acionar esse conhecimento no momento certo”, afirmou, defendendo que este contexto reforça o papel natural da Medicina Interna enquanto especialidade integradora.
Bernardo Neves salientou também que o reconhecimento do valor da Medicina Interna depende de uma redefinição dos modelos de avaliação e financiamento. “Sem essa redefinição, continuaremos a entregar valor que ninguém mede, e que, portanto, ninguém paga”, alertou.
Relativamente ao Congresso Nacional de Medicina Interna, o especialista destacou o seu papel único enquanto espaço de reflexão estratégica da especialidade. “É o único momento do ano em que a especialidade se reúne em escala suficiente para ter conversas que ultrapassam os problemas do dia a dia”, referiu, sublinhando a importância de discutir o posicionamento da Medicina Interna num contexto de mudança acelerada.
Quanto às expectativas, Bernardo Neves mostrou-se ambicioso quanto ao impacto do congresso na prática clínica. “Sair com mais perguntas do que aquelas que trago, aprender com os colegas de outros hospitais e encontrar mais pessoas dispostas a tentar passos concretos em direção a medicina baseada em valor”, afirmou, acrescentando que “o sucesso do congresso mede-se pelo que muda nos nossos hospitais na semana seguinte”.